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O FORMATO DA LITERATURA

Os novos desafios dos profissionais que moldam o mercado editorial alternativo brasileiro

Por Ana Carolina Tomé Rocha, Ana Milena Rocha,
Danielle Reis, 
Giovanna Cunha e Ícaro Santos.

Pegue o seu livro em formato digital, coloque em um caderno e envie para a lâmina de alumínio. No segundo passo, essa chapa é direcionada à máquina de impressão offset. Veja sua obra em processo de formação, com a tiragem inicial finalizada. Verifique se o plotter está de acordo com a sua vontade, pois essa é a última chance de identificar um erro. Aprovado, o livro está pronto para consumo. Para alguns escritores, o uso desses ingredientes pode ser substituído sem alterar a qualidade.

 

Embora esteja representado de uma maneira lúdica, nas vias de fato, não é bem assim. Segundo Graziela Reis, sócia-fundadora da agência literária Increasy, o que faz um livro ser chamativo para o mercado é a originalidade. “Aquele livro ‘receita de bolo’ encontramos aos montes. Mas, novamente, o que vai chamar atenção é se ele é o que o mercado está procurando no momento".

 

E, ao considerar que a tecnologia tem uma participação notável na sociedade, o mercado editorial não fica para trás na hora de se revolucionar e chamar a atenção por si só. Ainda que a primeira aparição de um e-book tenha acontecido em 1971, por Michael Hart, através do Projeto Gutenberg, uma espécie de biblioteca virtual que disponibilizava títulos gratuitamente, os e-books tomaram uma proporção maior nos últimos tempos. Suas principais características, que são a praticidade de locomoção e o grande espaço para armazenamento de títulos, geram ainda mais interesse do público leitor. É aí que a publicação digital ganha força.

 

De acordo com uma enquete realizada pela equipe do Mar de Páginas, através de redes sociais e grupos específicos para leitores, 69,2% dos entrevistados preferem livros físicos e 30,8% optam por digitais. Porém, cerca de 79,2% utilizam dispositivos de leitura eletrônicos. Em sua maioria, para ler autores nacionais independentes, o que evidencia a carência de espaço para esses profissionais no mercado editorial tradicional.

Tipo de papel comumente utilizado na impressão de livros físicos, contém menos porosidade, absorve mais tinta e possui uma maior resistência contra deformações.

Máquina utilizada para a impressão de trabalhos em grandes dimensões e qualidade.

Livro digital, eletrônico.

Decorrente dessa situação, a produção literária nacional ganhou novos formatos, como campanhas de crowdfunding, auto publicação e fundação de novas editoras. Carlos Henrique Morais, fundador da Editora Corvus, conta que percebeu o que faltava no meio literário, e decidiu implantar através do seu trabalho. “Vozes de minorias em visibilidade, desde autores LGBTQ+ a mulheres e pessoas de regiões pouco valorizadas no Brasil, como o Nordeste. Desde nossa primeira publicação buscamos trazer essas vozes ao mercado".


Mesmo essas iniciativas inovadoras enfrentam desafios em diversos campos, como verba e alcance. “Dependemos quase totalmente de financiamento coletivo, que é o que nos possibilita fazer nossas publicações (exceto publicações exclusivamente digitais). Sem isso, não teríamos como. Além disso, alcançar leitores e pessoas é um trabalho difícil, ainda mais quando se é um produtor independente e ‘desconhecido’. As pessoas precisam confiar na gente antes de tudo”, comenta Morais. O financiamento coletivo, também conhecido como crowdfunding, é uma campanha online para arrecadação de fundos para a elaboração de um determinado projeto. No caso da Editora Corvus e de outras editoras como Penumbra Livros e Editora Escureceu, as ações têm como fim a impressão dos livros.

Também conhecido como “financiamento coletivo” ou, coloquialmente, “vaquinha”, é a prática de arrecadar dinheiro coletivamente em prol de financiar um determinado projeto.

Prólogo: a construção do visual de mocinho

Apesar de alguns leitores carregarem a frase “não julgue um livro pela capa”, na hora de escolher algo para iniciar a leitura, outros defendem que o visual é a primeira coisa que influencia na decisão. Porém, há quem não perceba que a beleza de um livro nem sempre está somente na capa ou nas palavras. Existe muita dedicação para o posicionamento das páginas, cores, imagens e até mesmo para o tipo de fonte utilizada, o que mostra que a diagramação, processo de técnicas que organizam a questão do design gráfico, é tão fundamental quanto o começo, meio e o final de um livro. Para a designer editorial independente Gabriella Regina, não basta somente harmonizar tudo. Deve-se levar em consideração a vontade do cliente, uni-la à identidade do livro e do gênero literário e com o que está em falta no momento, pois a ideia final é criar algo inovador, que fique diferente do que já foi feito e visto antes.

CAPAS ANTES DA DIAGRAMAÇÃO

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Coleção Abraqueerdabra por Associação Boreal. Reprodução: Twitter

“[...] O dever da diagramação é tornar a leitura ainda mais prazerosa e confortável”, conta. “Uma boa diagramação é aquela que você começa a ler o livro de maneira fluída, que você mal sente as páginas passarem, e que sente que pode ler mil páginas o dia inteiro sem se sentir cansado, com a vista forçada, ou incomodado", diz Regina.

CAPAS DEPOIS DA DIAGRAMAÇÃO

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Coleção Abraqueerdabra por Associação Boreal. Reprodução: Amazon

Referente ao processo diferencial da diagramação de um livro físico para digital, a designer informa que isso também decorre da melhor maneira de visualização e considera também o público-alvo. “Livros impressos normalmente exigem fontes serifadas, já livros digitais não, já normalmente é optado por fontes sem serifa por ser leitura em tela e a fonte sem serifa ser mais fácil de ler. São vários detalhes a serem analisados de acordo com cada projeto".

 

Além da diagramação, existem outras funções que fazem parte da cadeia de produção de livros físicos e digitais, como a de preparadores de textos, revisores, leitores sensíveis e leitores críticos. Tais profissionais auxiliam na qualidade da redação e são comuns em editoras tradicionais, mas podem ser encontradas e contratadas de maneira independente.

A história por trás das páginas

Existe um pressuposto de que um autor só é considerado como tal quando há a publicação através de uma editora tradicional, o que não é verdade. Com a produção em meios independentes, é possível analisar um cenário onde esses autores têm mais facilidade de divulgação de suas histórias e maior liberdade de criação narrativa. Abrangendo uma vasta diversidade de escritores disponíveis em território nacional, mesmo que eles não usem os meios tradicionais em suas publicações.

 

Esse é o caso de Delson Neto, 26, que escreve desde criança. Seguindo carreira como escritor autônomo há 7 anos, ele relata a dificuldade que é viver como escritor no Brasil, realidade que também pertence a muitos outros autores. “É meio difícil a gente conseguir vender literatura, principalmente aqui no Brasil, então eu trabalho com muitas outras coisas durante o dia. Hoje em dia, eu me sinto menos escritor do que eu gostaria porque eu tenho que me dedicar às outras coisas na vida, sabe?”.

Trecho da entrevista com Delson Neto.

Mas, por amar escrever, Neto não se deixa abalar e continua criando as próprias histórias. Ele conta que busca inspiração nos afazeres do dia a dia e em sua vivência como membro da comunidade LGBTQIA+ e que, por ser autor independente, pode colocar sua assinatura nas obras. “Eu gosto sempre de criar histórias que desafiam um pouco o leitor, então nunca espere algo muito óbvio dos meus livros. Eles possuem quebra-cabeças, alguma coisa ali que você vai olhar e falar 'Meu Deus, pode ser que eu não tenha entendido isso".

O lançamento de seu primeiro livro em 2019, “Diário Simulado”, foi possível graças à plataforma digital Wattpad. O site reúne escritores e leitores de todo mundo e é um espaço convidativo para aqueles que buscam sucesso na carreira de autor. Neto publicou sua história em 2017 com a narrativa focada em Shura, uma garota que vive uma vida medíocre e se apoia em suas relações pessoais para seguir em frente, até que um acontecimento bagunça a realidade e nada mais é o que parece ser. O Sci-fi de Neto foi vencedor do prêmio criado pela plataforma Wattpad, Wattys, em 2018, na categoria “Criador de Mudanças''.

 

Ao vencer uma das categorias, a narrativa recebeu mais publicidade e em 2019, a editora brasileira Plutão, focada em ficção científica e em publicações digitais, publicou a história, transformando o enredo em livro digital.

Premiação anual realizada pelo Wattpad, onde os participantes são os livros publicados independentes na plataforma.

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Livro Diário Simulado. Reprodução: Amazon

O caso de Delson Neto evidencia as maiores oportunidades que o mercado digital oferece aos escritores. “O Wattpad foi uma experiência muito boa, ele transformou a carreira dali para frente, porque é uma plataforma gratuita, sabe? Então se você for numa livraria vão ter livros que são muito "fracos" para você ou livros que são incríveis, eu acho que é isso. É uma estante digital de experimentação. Então tem gente com 13/14 anos que tá começando e tá colocando suas histórias e eu acho que é muito corajoso”, relata Neto.

Ele também destaca outra diferença patente na vida de um escritor ao lançar uma história em formato digital: o contato direto com os leitores. “Isso é fantástico cara! Porque uma coisa é quando você lança um livro. Você vai ter um review na Amazon, alguma coisa assim, ou até às vezes as pessoas te mandam um InBox, né? Gostei da tua história e tal. Mas, é muito diferente você poder interagir e responder, né? O comentário quase ao vivo ali, é muito legal”.

Epílogo

 

A publicação em franquias tradicionais pode até ser um sonho para muitos do ramo, mas nem sempre ter um livro nessas megastores é sinônimo de sucesso ou até mesmo de satisfação para o criador da obra.

 

Em uma pesquisa realizada em junho de 2021 pela Nielsen BookScan e divulgado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), o Painel do Varejo de Livros no Brasil, mostra um aumento de 28 milhões de exemplares vendidos contra 18,9 milhões no mesmo período em 2020 – um acréscimo de 48,5% em volume.

 

Os dados contemplam vendas de lojas físicas e virtuais, incluindo e-books e exemplares físicos na contagem, porém as preferências pelo método de leitura se distinguem. Para a autora Clara Alves, os formatos na verdade se complementam. “Eu não acho que o e-book digital vai superar o físico, eu acho que os dois são complementares e eu acredito que com avanço das plataformas digitais, e o desenvolvimento destas plataformas, a gente hoje tem milhares, tá bom milhares talvez seja um exagero, a gente tem várias plataformas que ajudam na publicação independente e ajudam esses autores a serem enxergados pelas editoras tradicionais”.

Trecho da entrevista com Clara Alves.

De acordo com dados fornecidos em um levantamento do site Opinion Box, 83% dos entrevistados afirmam que leem mais livros físicos, porém 76% dizem que o melhor formato para leitura são e-books, no smartphone ou tablet. Seja pela praticidade de se ter um livro na palma da mão ou pela acessibilidade, o digital vem ganhando cada vez mais espaço. Porém, os físicos se mantêm no dia a dia dos leitores, “(...) Então eu acho realmente que essa coisa da gente falar que o livro físico vai acabar, não vai. Ele chega às pessoas, elas querem ter um lugar para ter um autógrafo do autor, seja autor nacional e internacional, quando ele vem ao Brasil. Elas gostam, hoje em dia a gente está aumentando muito a questão das marcações, das pessoas colocarem post it ali das frases que elas gostaram ou de outra coisa de que elas gostaram. Então eu acho que o livro físico proporcionam essas coisas que o e-book não proporcionam e aí as pessoas gostam de ter os dois”, afirma Alves.

A rotina de um autor independente não se baseia somente em escrever, em expor suas ideias e publicar. Ele, todos os dias, revoluciona. Pois, diante de um cenário repleto de mudanças, oscilações de vendas e um futuro imprevisível, em modo físico ou digital, continua a trilhar seu caminho e seu sonho através de palavras.

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